O Bar do Beto é o clássico botequim. Estufa com petiscos no balcão, cerveja gelada e uma infinidade de rótulos de cachaça, boa parte produzida em terras do Caparaó. Mas o local tem um diferencial: não toca música. E nem pode. O ambiente é voltado à conversa no balcão. Este ano, o bar completou 30 anos, 24 deles no mesmo local, a Praça João Acacinho, no centro de Guaçuí.

‘Aqui dentro construí amizades. Pessoas que moram muito longe, têm bar próximo de suas casas, mas se deslocam até aqui. Com ou sem chuva. Eles dizem que encontram aqui um ambiente que lhes agrada, cerveja, petisco e as amizades. É o ponto de encontros de amigos”, conta Paulo Roberto Rodolfo, o Beto, enquanto repõe a maçã do peito na estufa, porção de carne com boa saída.

A imagem estereotipada de bar mudou com o tempo, segundo Beto. “Antigamente falavam que só frequentavam bêbados, pessoas caindo pelo chão ou de má conduta. A visão mudou. Tenho vários tipos de clientes. Os da manhã e da tarde, maioria aposentados, passam aqui e bebem uma cervejinha. Durante a semana, tem o pessoal que sai do trabalho e vem beber, comer, assistir jogo e conversar fiado (risos). E os do fim de semana. Pessoal do rock, do forró ou sertanejo. Ficam todos na praça, numa boa”, conta Beto.

Balcão

“É o bar que a gente se sente mais seguro. Se chega uma pessoa indesejável, implicante, ele logo pede para se retirar. Tá sempre atento. Nós (clientes) temos a sensação de segurança aqui”, diz o professor João Batista,  frequentador assíduo.

“Sou de Cachoeiro, estou em Guaçuí há três anos a trabalho. Desde que cheguei, frequento o bar e posso afirmar que minhas primeiras amizades eu fiz bebendo aqui e carrego até hoje. Além de uma ótima pessoa, Beto ainda faz esses petiscos saborosos, fica difícil ir em outro lugar”, brinca o analista de atendimento Márton Arpád Vásárhelyi.

Além de atender o pessoal no balcão e administrar o negócio, Beto garante que é ele que prepara as delícias que ajudaram a dar fama ao local. “Eu mesmo preparo tudo. Já vendi salgado em vitrine, mas eu quis inovar, todos os bares vendiam salgados. Até que pesquisei na internet e vi uma estufa dessas de restaurante e comprei, sem o pé de apoio, para colocar no balcão. Vendo de terça à sexta, seis variedades. Língua-de-boi, rabada, moela, carne de boi com batata, torresmo e peixe frito”. Tem boa saída, o povo gosta.

Humilde o Beto. Na verdade, o “povo” adora a comida.Francamente, uma coisa é certa, ele faz o melhor tira-gosto do Sul do Estado”, conta Jorge Costa, 63, enquanto bebe uma cerveja.

“Aqui é uma espécie de jornal, sabia? Falamos de política, economia, gastronomia, música. Um dos motivos para eu vir ao bar é o preço justo. Beto não pesa a mão. Agora, depois dessa entrevista se ele fizer isso eu não venho mais. Ouviu, Beto?” conta Carlos Cezar, o Cacá, apontando para Beto.

Entrevista

Num bate-papo, Beto destrincha a trajetória que fez o, ainda adolescente, largar o emprego no escritório de contabilidade do irmão, para seguir no ramo que já foi de seu pai.

Como foi largar a estabilidade de um emprego para começar seu próprio negócio do zero, ainda novo, sem experiência como empresário?

Fiquei no escritório por cinco anos ainda. Não era meu perfil. Meu pai, conhecido na cidade por Tibinha, sempre foi comerciante. Ele teve o Bar Progresso, na Rua do Norte, ao lado da antiga Farmácia do Cidinho. Me interessei em abrir um bar e o ponto comercial era do meu pai, que estava fechado.

O bar virou realidade. E agora?

“Eu estava com 19 anos, sem trabalhar, então sem recursos financeiros. Meu pai foi quem acreditou. Me deu dois engradados de cerveja e três de refrigerante. Começou bem, funcionava. Era jovem, gostava de festa, acabei vendendo o bar. Abri outro, na rodoviária, onde hoje é o Bar do Jair. Fiquei pouco tempo também.

Da “comodidade” de um bar fixo, para se aventurar pelas festas no trailer Maluco Beleza. O que motivou?

Resolvi arranjar um trailer para fazer festa na cidade. Fiquei por um ano rodava pelas festas na região, curtia e trabalhava também, foi da juventude. Cansei de viajar, comecei a namorar, que hoje é minha esposa. Na época grávida do meu filho mais velho, o Matheus. Foi quando apareceu a oportunidade de vir para esse ponto. Isso faz 24 anos.

Causos do bar

“Certa vez entrou um senhor, humilde, disse que morava na roça. Queria comprar uma mobilete. Eu ainda disse que possuía uma moto, mas que não vendia. Quando ele me diz: não menino, eu quero uma mobilete dessas de cerveja. Ele queria uma long neck!”

Minha Opinião

Encontro das tribos no centro da cidade, o bar é pura empatia. Ali a hora voa, a cerveja não esquenta, o assunto não acaba, mas, se bobear, o petisco sim. A música (por incrível que pareça) não faz falta. Todos os jogos de futebol, de todos os campeonatos possíveis são exibidos. E tudo isso acontece na mais perfeita paz. Grupo de amigos, homens, mulheres, solteiros, casados, com filhos ou não; Trabalhador e patrão. Todas as classes, todos os gêneros, sem preconceito, com muito respeito. Da porta para dentro todo mundo é igual. É o bar da diversidade e da democracia. E com o melhor torresmo.

 

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